«All that is necessary for the triumph of evil is that good men do nothing» (Edmund Burke)

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quinta-feira, 17 de março de 2011

O Governo À Rasca

O principal problema deste governo é o de ser parte integrante da geração à rasca. Lá no fundo, como muitos outros cidadãos, querem emigrar, ser governo num outro país – um qualquer, em que exista maior estabilidade e bem menos problemas. Também eles querem mudar de governo, mas não o podem dizer, porque são o governo e o objectivo do governo é ser poder.

Tal como os jovens da geração à rasca, este governo também é precário – é um governo a recibos verdes, sem saber como será o futuro. E, como os jovens à rasca, a sua grande ambição é ser do quadro, ter uma maioria absoluta. Enfim, encontrar alguma estabilidade, que lhe permita sair de casa dos pais e montar uma sua, que lhe dê hipótese de constituir família, sem o empecilho do partido, como fez Cavaco Silva.

São expectativas aceitáveis e compreensíveis.

O problema é que a situação não se confina a isto: o governo é, também, como a geração dos pais da geração à rasca: farta-se de pagar, está envidado até ao tutano – entre as dívidas herdadas e as novas, contraídas para manter o estilo de vida, está à beirinha de cortar os pulsos. E já não consegue contentar quem quer que seja.

Por isso, dizem que no tal sábado de todas as manifestações, no dia 12 de Março e 2011, o governo reuniu-se num conselho de ministros extaordinário, nos jardim da residência oficial do primeiro-ministro, em S. Bento, para se manifestar, empunhando cartazes e bradando palavras de ordem.

quinta-feira, 10 de março de 2011

A moção faz-de-conta


O BE lançou uma moção de censura ao Governo. Faz-de-conta que queria derrubar Sócrates. Na verdade, Francisco Louçã, o mais experiente dos políticos portugueses em actividade, tinha dois objectivos. Primeiro, ultrapassar o PCP, que andava a avisar que estava a estudar uma moção. Segundo, dizer que quer derrubar Sócrates mas, ao mesmo tempo, mantê-lo no Governo. Loucã cumpriu tudo aquilo a que se propôs. No entanto, nem sempre a soma de um mais um dá dois e desta vez o BE pode descontar os ganhos e perder pontos como, aliás, as sondagens já revelam. Isto porque os portugueses estão fartos do jogo do faz-de-conta e perceberam a jogada. Se ele queria derrubar Sócrates, precisava do apoio do PSD, precisamente o único partido que pode tirar o poder ao engenheiro. Ora como o próprio BE fez questão de incluir o PSD nas críticas da moção e como os seus dirigentes cedo fizeram saber que seria ridículo um apoio social-democrática à mesma, o resultado só podia ser um: mais um dia de parlamento a brincar ao faz-de-conta.

Além disso, se Sócrates caísse e Passos Coelho assumisse o Governo, qual seria a vantagem para as metas a que se propõe o BE?

Entretanto, e neste jogo, o PSD e o CDS usaram da abstenção, perpetuando o faz-de-conta. É que só estes dois partidos estão interessados em derrubar Sócrates, pois só estes têm aspirações de chegar ao poder. No entanto, com esta jogada, dificilmente terão o apoio futuro da esquerda numa nova moção. É que BE e PCP desta vez votaram a favor, mas será muito complicado apoiar uma iniciativa similar do outro extremo da bancada.

Enquanto se brinca ao faz-de-conta, Sócrates passa entre os pingos da chuva. Ele, realmente, é único que ganha com o jogo das moções e que não esconde a verdade (pelo menos neste aspecto): O Engenheiro quer manter-se no poder…É que Sócrates sabe que no dia em que o abandonar dificilmente lá voltara. A não ser, é verdade, que enquanto os políticos brincam ao faz-de-conta, o tempo dê ao engenheiro mais tempo, para que ele tenha alguns números que precisa para também poder continuar a brincar ao faz-de-conta.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Mais canhões e menos manteiga

Fico espantado quando ouço pessoas inteligentes afirmarem coisas do género "os árabes não sabem o que é a liberdade", ou "estas revoltas são um perigo para a Europa"...

Evidentemente que é mais cómodo para a Europa ter ditadores a zelar pelo seu quintal, tal como os Romanos decadentes do século V preferiam pagar aos Bárbaros para defender as fronteiras. E mais barato, também. Mas não é justo que a nossa prosperidade e conforto assentem na imposição de tiranias abjectas sobre centenas de milhões de seres humanos. Ninguém merece viver sob o jugo de um Khadaffi: e sinto vergonha do Governo do meu País por ter usado o dinheiro dos meus impostos para cortejar um tirano abjecto.


Mas voltando ao tema: em primeiro lugar, não há razões para crer que os países do Magrebe vão resvalar para regimes autoritários hostis. Quem já visitou a Tunísia e Marrocos, por exemplo, sabe que os povos desses países são mais esclarecidos do que se possa pensar à primeira vista. Além de que têm uma profunda ligação ao Ocidente. Não querem viver no Irão, mas sim em França ou na Alemanha.


No fundo, querem apenas ser e viver como nós. Pude constatar isso na cosmopolita Casablanca e na elegante Tunis, mas também em Tozeur, nas portas do Sahara, ou em Ourika, nas montanhas de Marrocos. Os árabes são pessoas como nós, que apenas querem viver as suas vidas em paz e liberdade. Como qualquer ser humano.


Por isso, se uma forma de democracia representativa se consolidar no Magrebe, ainda que com um certo 'tempero' local, não há razões para ter medo. Afinal, nunca houve uma guerra entre duas democracias na era moderna. E se houvesse, eles perdiam.

Até porque mesmo que as coisas dêem para o torto, o argumento dos pessimistas não resiste a uma análise séria: a Europa tem os meios financeiros para se defender a si própria. Continua a ser a maior economia do mundo e a maior parte dos países que a integram têm todas as condições para equiparem as suas forças armadas para proteger a navegação comercial no Mediterrâneo, vigiar as costas europeias e controlarem a imigração ilegal.

Basta que haja vontade política e que seja explicado aos eleitores europeus que é necessário começar a gastar menos dinheiro em manteiga e mais em canhões. Ou em barcos para a guarda costeira. O intervalo para recreio acabou: a História está de volta e os europeus parecem ser os únicos a não compreender isto.

Por fim, nenhum país do Norte de África é uma ameaça invencível, mesmo que caia nas mães de um regime fundamentalista com intenções hostis. A Europa já enfrentou perigos muito piores, ainda esta geração de políticos 'pepsodent' usava cueiros.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Sócrates é um Lula ou um Perón?

No entanto, ainda há alguém que poderá baralhar as estratégias da Oposição. Esse alguém chama-se José Sócrates e, parafraseando Mark Twain, as notícias sobre a sua morte política são extremamente exageradas. O estranho fascínio que Sócrates exerce sobre os portugueses ainda há de ser estudado pelas gerações vindouras. A História está repleta de homens destes que ou elevam as nações a patamares de prosperidade nunca antes imaginados, ou as arrastam para uma decadência profunda da qual levam décadas a recuperar. A questão que vos deixo é: será José Sócrates um Lula da Silva ou um Juan Perón?

A falácia da estabilidade II

O momento presente constitui também uma boa oportunidade para que possamos observar as manobras e os tacticismos dos diferentes partidos, numa altura em que a situação do País exige grande sentido de Estado.

Toda a oposição está desejosa de ver o Governo cair, de preferência num contexto em que Sócrates esteja definitivamente acabado do ponto de vista político (daí a estratégia de 'fritura lenta' do Executivo que o PSD adoptou). Porém, ninguém quer assumir o ónus de fazer cair o Governo, quiçá por receio de sofrer o mesmo destino do malogrado PRD, que desapareceu do mapa político após ter levado à queda do primeiro governo Cavaco, em 1987. Assim se explica que o próprio Bloco de Esquerda tenha dito ontem, através de um dos seus dirigentes, que a moção de censura tem apenas carácter simbólico. Uma lamentável falta de cojones, se me permitem a expressão, até porque o Sócrates de 2011 não é o Cavaco de 1987.

O Povo português merecia melhor: merecia um Governo que lhe dissesse a verdade e que prestasse esclarecimentos aos representantes eleitos da Nação (os 'debates' com o PM no Parlamento são meras gritarias e discussões rudes). Merecia também uma Oposição que assumisse as suas causas e objectivos sem receios de espantar o eleitorado. Se o PSD e o PP querem uma maioria absoluta, que assumam que vão fazer cair o Governo. Será que precisam de mais pretextos para justificar a saída do Executivo?

Quanto ao PCP e ao BE, teriam muito a ganhar com a queda do PS e com a instauração de uma maioria de direita. Com o PS fragilizado e 'eucaliptizado' por anos de socratismo, será fácil a estes partidos da extrema-esquerda ganharem lugares no Parlamento e um vasto espaço de manobra através de um clima de contestação permanente a um Governo de direita. O PCP e BE poderão fazer aquilo que fazem melhor: atacarem o Governo sem terem a responsabilidade de participar na governação.

A falácia da estabilidade

Há pelo menos dois anos que o Governo fala repetidamente da necessidade de manter a "estabilidade" para corrigir os problemas do País. Mas este é um argumento enganador: é como se a estabilidade política fosse um fim em si mesma e não um mero meio para atingir um bem maior, que é o da boa governação de Portugal.

O argumento falacioso regressou à ordem do dia com a moção de censura que o BE anunciou esta semana. A este propósito é bom lembrar que as moções de censura são instrumentos legítimos no combate político em democracia. Se o Povo português quisesse que o PS voltasse a ter maioria absoluta tê-la-ia concedido através do voto nas últimas eleições. Ao negar-lhe essa maioria, o Povo abriu caminho ao derrube do Governo, bastando para tal que surja uma moção que una toda a Oposição contra o Executivo.

O País ficará pior se o Governo cair? Não creio.

Onde está o liberalismo?




Há uma confusão generalizada sobre o liberalismo económico em Portugal. Os partidos de esquerda queixam-se frequentemente do alegado "neoliberalismo" do Governo, mas tal pura e simplesmente não existe. Nunca existiu, aliás: pelo menos desde o Estado Novo que os Governos intervêm na economia e na vida das empresas como bem entendem, distribuindo benesses e deixando cair da mesa do orçamento as migalhas de pão que dão de comer a muito boa gente. Basta recordar as cartas quase patéticas que um certo grande empresário do Portugal de então escrevia todas as semanas a Salazar.

Um governo liberal nunca usaria uma 'golden share' (nem permitiria a sua existência!), privatizaria a maior parte das empresas públicas, reformaria o sistema de justiça (porque esta é uma das três funções clássicas do Estado), apoiaria as exportações sem beneficiar a empresa X ou Y, fomentaria a concorrência em sectores onde esta não existe e flexibilizaria as leis laborais. Isso sim, seria liberalismo económico, na linha de Adam Smith (na imagem) e de outros teóricos.